IRIS HALMSHAW

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IRIS HALMSHAW - a genialidade de uma criança

domingo, 18 de agosto de 2013

AVE-MARIA - FERNANDO PESSOA






À minha mãe

“Ave Maria”, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura!

Vós que sois “cheia de graça”,
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa!

“O Senhor”, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como “é convosco”
Eternamente o seu brilho!

“Bendita sois vós”, Maria,
“Entre as mulheres” da terra;
A vossa alma só encerra
Doce imagem de alegria!

Mais radiante do que a luz
E “bendito”, oh Santa Mãe,
“É o fruto” que provém
“Do vosso ventre”, Jesus!

Gloriosa “Santa Maria”,
Vós que sois a “Mãe de Deus”
E que morais lá nos céus,
Velai por mim cada dia!

“Rogai por nós pecadores”,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores!

Orai, “agora”, oh Mãe querida
“E” (quando quiser a sorte)
“Na hora da nossa morte”,
Quando nos fugir a vida!

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Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura

FERNANDO PESSOA



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EPIGRAMA - BOCAGE





Levando um velho avarento
Uma pedrada num olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

«Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso.»

BOCAGE



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PIA, PIA, PIA - FERNANDO PESSOA





Pia, pia, pia
O mocho
Que pertencia
a um coxo.

Zangou-se o coxo
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia.

FERNANDO PESSOA



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LÍNGUA DE NHEM - CECÍLIA MEIRELES





Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém

E estava sempre em casa
a boa da velhinha,
resmungando sozinha
nhem – nhem – nhem – nhem – nhem – nhem 

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha
principiou também

a miar nessa língua,
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem – nhem – nhem – nhem – nhem – nhem 

Depois veio o cachorro
de casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem – nhem – nhem – nhem – nhem – nhem 

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém

ficou toda contente
pois mal abria a boca
tudo lhe respondia:
nhem – nhem – nhem – nhem – nhem – nhem 

CECÍLIA MEIRELES



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O FILHO MORTO - SOARES DE PASSOS





No povo de além da serra
Vai a noite em mais de meio,
E a pobre da mãe velava
Unindo o filhinho ao seio.

«Acorda, meu filho, acorda,
Que esse dormir não é teu;
É como o sono da morte
O sono que a ti desceu.

Tarda-me já um sorriso
Nos teus lábios de rubim;
Acorda, meu filho, acorda,
Sorri-te ledo p´ra mim.»

Mas o pobre doentinho
Em seu regaço expirou;
E a mãe o cobriu de beijos,
E largo tempo chorou.

Em seu pequeno jazigo
Dois dias chorou também;
Ao terceiro, o sino triste
Dobrou à morte de alguém.

E à noite, no cemitério,
Outro jazigo se via:
Era a mãe, que ao pé do filho
Na sepultura dormia.

SOARES DE PASSOS



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A RAPOSA E A CEGONHA - ADOLFO SIMÕES MULLER





O sr. Pombo, o carteiro,
trouxe um bilhete à Cegonha,
em folha de pessegueiro,
que ela soletrou, risonha:

«Dona Raposa, a Vossência,
envia muito saudar,
aguardando a comparência
de Vossência no jantar

que às Tantas do dia Tal
do corrente, se efectua
no Retiro do Pardal,
na rua da Catatua.

Não diga nada ao correio
e creia-me ao seu dispor.
Traje: simples, de passeio
R.S.F.F. (Responda, se faz favor).»

É claro: à hora marcada,
no dia Tal, no bilhete,
Dona Cegonha, apressada
lá seguiu para o banquete.

Mas foi uma decepção,
pois a Raposa, matreira,
fez servir a refeição
numa pedra da ribeira...

E, enquanto a pobre Cegonha
achava o caso bicudo,
a Raposa, sem vergonha,
tratava de comer tudo!

Mas a Cegonha, à saída,
despediu-se em tom amigo:
- Gostei muito da comida!
Almoce amanhã comigo!

De manhãzinha, a Raposa,
sempre cheia de apetite,
não quis saber doutra coisa
senão daquele convite.

- Sim, senhora! Bela mesa! -
gritou logo, satisfeita –
Cheira que é uma beleza!
Há-de me dar a receita...

- Bem digo eu, afinal,
e a colegas das melhores,
que dona de casa igual
não há nestes arredores!

Pôs então o guardanapo,
pensando, de olhos em alvo,
que havia de encher o papo
graças a mais um papalvo...

Já a Cegonha servia,
prazenteira, o seu almoço,
numa bilha muito esguia
e funda que nem um poço.

Só um bico, desta vez,
podia chegar ao fundo...
Foi o que a Cegonha fez:
rapou tudo num segundo.

E fula, de olhar em brasa,
a Raposa, como louca,
teve de voltar a casa,
fazendo cruzes na boca.

Vingança é coisa mesquinha!
Mas na vida quem faz mal
paga às vezes a continha
com juros e capital...

ADOLFO SIMÕES MULLER



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POEMA PIAL - FERNANDO PESSOA





Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!

FERNANDO PESSOA



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